terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Yoga, sociedade e estado de graça não são gratuitos...

As circunstâncias nos movem. Indivíduos, grupos e sábios, ninguém lhes escapa. Evolução, na acepção de mudanças adaptativas às circunstâncias, talvez seja a expressão mais adequada. Uma andorinha só não faz verão, e se um líder mobiliza muita gente, que mobiliza muito mais... podemos seguir interligando os ditados e construir uma teoria cultural.

Shri Yogendra, ao fundar o The Yoga Institute em 1918, exemplifica uma dessas adaptações: um movimento autodenominado "Renascença do Yoga". Ele e alguns outros seus contemporâneos (Ramakrishna, Shivananda, Aurobindo, Yukteswar, Yogananda entre outros) pegaram a onda do renascimento indiano (movimento de libertação da Índia do final do século XIX ao meio do XX) e reapresentaram o Yoga à própria Índia, de um modo mais inclusivo e extensivo até para os ocidentais adotarem.

As origens do Yoga, no entanto, confundem-se com um período de grande produção cultural de uma civilização já bem sofisticada, a ponto de produzir escolas de pensamento e princípios filosóficos, bem anteriores aos que depois nos chegaram via Grécia e Egito. Portanto, social na origem.

É marcante, porém, a alegoria do sadhu, do eremita e outras que dão uma aura de mistério e poder extraordinário a indivíduos, admirados ou temidos por seu grande conhecimento e superior sabedoria. Mas essa figura individualizada e singular não é exclusiva de indianos, ela espalhou-se pelo mundo. Talvez preencha uma figura arquetípica que nos habita, os humanos.

Da personalidade ao coletivo social, destaca-se, na sistematização do Yoga de Patanjali, a necessária harmonização da atuação individual com os outros no mundo (uma espécie de tríade inescapável de autossustentabilidade). O que constitui um desafio e tanto para compatibilizar em todas as épocas. Nós sentimos com a intensidade das nossas circunstâncias, mas, em cada época, vivem-se as respectivas circunstâncias, e não há evidências de que tenha havido "moleza" em alguma delas para todos os viventes, embora sortudos e espertos sempre obtenham privilégios em relação aos cidadãos normais.

Lideranças sociais bem sucedidas têm que dar um jeito de conduzir o coletivo, mas esse nunca foi o caso do Yoga (apenas uma das escolas de pensamento tradicional). Na Índia, o movimento de desobediência civil potencializou o inconformismo e mais um todo de características socioculturais-político-religiosas próprias com as circunstâncias de enfraquecimento do poderio da Inglaterra na segunda guerra mundial. Um coletivo de enorme complexidade para qualquer tentativa de captura intelectual.

A introspecção individual, no entanto, é mais necessária que desejável como condição do viver (passado o susto e a carreira que permitiram a sobrevivência à circunstância de aniquilamento eventual, que volta e meia nos ameaça de modo radical, desde os primórdios da espécie humana). Quanto mais tranquila e consciente, melhor. Mas se não der, pelo menos temos que descansar ou dormir em paz, com regularidade, para vivermos bem.

Desafios, afazeres, sempre haverá bastantes. Solicitações e demandas, então, nem falar. Porém, são os comportamentos pessoais de cada um de nós que nos colocam mais ou menos à mercê desses fatores externos. Na maioria das vezes, seria possível evitar ou reduzir a nossa exposição aos excessos de fatores externos. Mas somos "viciados" em nossos comportamentos habituais. A "autodesintoxicação" depende mais de aproveitar algum relance momentâneo de lucidez, que nos estimule a pequenas mudanças de comportamento, que possam prosseguir alterando o rumo habitual (como nos movimentos sociais de mudanças que, embora só percebidos quando se agigantaram, tiveram origem e desenvolvimento em pequenas diferenças de atitudes, que se foram reforçando até serem reconhecidas e respeitadas).

Praticar Yoga, meditação, introspecção, reflexão crítica ou outros artifícios que dão chance a mudanças virtuosas: essa é a dica, o pulo do gato. O importante é prosseguir até conseguir disciplina de praticar as virtudes e saborear o caminho do viver nas circunstâncias disponíveis.

Thadeu Martins