quarta-feira, 9 de março de 2011

Por uma vida mais contemplativa

A palavra contemplação pode ser entendida de uma forma bastante ampla, como participação, inclusive. Distintamente do que muitos podem pensar, contemplar não é apartar-se.

Indo às origens, o sentido de contemplar é o de tornar-se o que se está observando. Como se o observador e o objeto da observação pudessem tornar-se uma coisa só. Parte-se do estágio de concentração para o de contemplação. A partir daí, transcende-se essa aparente dualidade (observador e observado). Chega-se então ao estágio de Samadhi, em que a dualidade já não mais existe. Isso é possível porque os limites que desenhamos para convivermos, segundo uma determinada ordem, são apenas um desenho, uma convenção, um costume compartilhado e que pode ser superado, transcendido.

Então, o contemplar, do qual falamos, vai além do verbo do nosso código linguístico, para alcançar o que era originalmente, na história do Yoga e de seu modo de meditar. Dessa forma, o que caracteriza mesmo a meditação é o identificar-se com o que se contempla e, em seguida, livrar-se dessa identificação.

O exercício de meditação é estimular essa identificação, levá-la ao ápice e então desidentificar-se, separar-se. Levamos o nosso eu, que está habituado ao próprio indivíduo, a colocar-se em algo, seja numa árvore, num conhecimento ou numa equação. Levamos o eu a se transformar no objeto de observação, até não nos percebermos mais como apenas uma individualidade.

Na vida, em algum momento, nós nos percebemos como indivíduos, temos consciência de nós mesmos, em seguida, percebemos as muitas denominações que temos, percebemos as várias identificações que assumimos, que são papéis, circunstâncias – pai, mãe, professor, empresário. Vivenciamos esses vários personagens, vamos nos identificando com todos eles e vivendo essas muitas personalidades. Também podemos perceber que, além desses personagens, existe alguém que assume esses vários papéis. Percebemos que somos capazes de nos tornar isso ou aquilo, de nos tornar também o objeto de seu estudo, de seu interesse; ao mesmo tempo, somos capazes de perceber que não somos aquele objeto. Podemos tanto nos identificar quanto nos desidentificar.

Ao nos desidentificarmos, perguntas podem surgir, como “quem sou eu, afinal?”. São perguntas que carregam consigo uma série de intenções; trazem um princípio perguntador, que quer nos levar a algum lugar. Já o oposto dessa análise é o contemplar, entregar-se, e ao mesmo tempo integrar-se. Nesse caminho, não fazemos perguntas, nem nos preocupamos em nos identificar; nós nos concentramos a ponto de vivenciarmos aquilo que observamos com atenção.

Então, o contemplar dos três verbos da meditação – concentrar, contemplar e transcender – é um caminho sem perguntas, de entrega. Abrimos mão do agir, dos nossos comportamentos habituais, que se tornaram uma identidade.

Abrir mão dos muitos nomes que temos, dos nossos hábitos, desse “quem somos” é muito exigente. O caminho do não-agir começa restringindo toda essa personalidade que foi formada. Deixamos de agir e nos concentramos, com a intenção de entregar-se e transcender. De repente começamos a perceber a maravilha de estarmos vivos; tiramos dos óculos as lentes da personalidade e deixamos ver a vida seguir, como também pode ser.

Thadeu Martins