quinta-feira, 17 de março de 2011

Mude de estação enquanto você pode

Somos todos seres mentais e, por isso mesmo, estamos sujeitos às armadilhas da mente. Segundo o sábio Patanjali, que sistematizou o conhecimento em Yoga, essas ciladas (formas de movimentação mental) são de cinco categorias: o conhecimento certo ou errado, a fantasia, o sono, o sonho e a memória.

Somos um organismo criador de memória. Basicamente, ser humano se relaciona e cria memória. E aí é que mora o perigo, pois, ao criarmos memória, formamos uma referência importante para a nossa vida. Os acertos que teremos serão baseados nos erros e acertos que já tivemos. Mas muitas das vezes, ficamos presos à memória. Com isso vem o medo e todo tipo de elaboração mental baseada em realidades que existiram, mas não existem mais: de fatos passados. Ficamos tão tomados pela vivência do passado que não conseguimos nos desligar.

Todos nós continuaremos a fazer isso, a nos apegar ao passado. Somos assim há mais de um milhão de anos. O que Patanjali sugere é administrarmos melhor essa nossa natureza. Afinal, na grande maioria das vezes, a memória nos é bastante positiva. Mas o fato é que vivenciamos por demais as memórias.

Nos exercícios de Yoga e meditação, nós treinamos como parar esse processo mental – seja o de conhecimento, de fantasia, do sono, do sonho ou da memória. A intenção é criarmos o hábito de neutralizarmos os movimentos mentais. Sabemos que não vamos conseguir isso nunca, mas podemos ter ao menos um certo controle, dependendo da capacidade que cada um de nós tenha e do hábito que cultivarmos. Então, se nos habituarmos a, de vez em quando, parar de pensar, vamos perceber que não é tão difícil assim. Com a prática, vai ficando fácil e assim ganhamos domínio sobre o ambiente no qual estamos e sobre nós mesmos. Deixamos de ficar reféns dos nossos pensamentos.

Podemos também mudar a sintonia mental que nos leva ao estresse e conduzir a nossa mente a uma outra estação mais favorável ao bem-estar. Para isso, vale relaxar, ouvir música, desenhar, colorir mandalas, conversar com amigos e outros meios. O importante é criarmos um hábito, um ritual propiciador. Só isso já constitui uma pré-condição para evitarmos o estresse exagerado.

Patanjali destaca, ainda, que são cinco as causas de sofrimento: a ignorância, o egotismo (ignorância que exagera a importância individual), o apego exagerado ao que dá prazer, a aversão exagerada ao que causa sofrimento e o receio da morte. Ele não discorda que viver é sofrer – isso é uma unanimidade –, mas ressalta que devemos superar o sofrimento.

Então, começou a sofrer muito, o melhor é mudar de estação. Em seguida, pedir ajuda para lidar com a crise. Depois desenvolver um hábito regular de esclarecer, compreender, aceitar a realidade e prosseguir, de modo a tratar com atenção e consequência as causas e condições que propiciam o seu sofrer. Você vai descobrir algumas condições ao seu alcance (talvez com a ajuda de amigos) de tornar o sofrimento mais suportável ou até superável, como é o caso dos poetas, dos compositores e dos artistas em geral.

Thadeu Martins