sexta-feira, 13 de maio de 2011

Yoga na Prákriti

O trocadilho é só mnemônico, mas, na prática, a compreensão hinduísta da origem do universo diz que tudo começa com uma referência, que não se manifesta: Purusha; e com algo que se manifesta, que pratica, atua: Prákriti.

As primeiras manifestações de Prákriti são Mahat e Budhi. Este último é o equivalente na mitologia grega ao deus Hermes e na romana ao deus Mercúrio – deuses da comunicação. Mahat, então, antecede a Budhi, o princípio intelectual. Ou seja, Mahat equivale ao cérebro réptil; é tudo aquilo que forma a nossa percepção dos sentimentos. Nós sentimos e nos emocionamos antes de raciocinar.

Nos textos antigos, Budhi é associado a um cocheiro de uma carruagem de três cavalos: o princípio sutil (Satva), o princípio denso (Tamas) e a transformação de um em outro (Radja); a realidade é Radja, movimenta-se, transforma-se. Esses três princípios estão sempre em manifestação, às vezes um sobrepondo-se ao outro.

São princípios divinos, não apenas sociais, focos da atenção em Yoga e Shamkya (escolas filosóficas). O sábio Patanjali – que sistematizou o conhecimento em Yoga a partir de toda essa tradição que existia – afirma logo de início que Yoga é a cessação das movimentações mentais, dos turbilhões da mente (Yogachittavrittiniroda). Ele se refere justamente a esse jogo entre Budhi e Mahat, o primeiro tentando racionalizar intelectualmente Mahat e controlar as movimentações Satva, Tamas e Radja.

As posturas e a meditação em Yoga têm como foco esse controle. Ao longo do dia, podemos também perceber as nossas movimentações: às vezes mais preguiçosos (Tamas), ou mais dinâmicos (Radja), ou mais contemplativos (Satva). A atenção a essas percepções é importante para mantermos o nosso equilíbrio. Se, por exemplo, vamos fazer algo que exige muito esforço mental, não vamos exagerar na comida para não ficarmos num estado tamásico.

No nosso cotidiano, vamos usando Budhi para nos equilibrarmos, sem esquecermos das quatro atitudes básicas que são reforçadas em Yoga: saber onde estamos, perceber quem somos nesse onde estamos, praticar o desapego e manter a autoconfiança, para agirmos do modo mais adequado.

Então, a prática de Yoga é ter o controle mental que nos possibilite perceber onde estamos, qual é a energia mais apropriada – se é mais Satva, Tamas ou Radja – alimentar-se e comportar-se de acordo para seguir em frente. É um estado de prática permanente da atenção.

Thadeu Martins