terça-feira, 14 de junho de 2011

Vamos nos transformando no que praticamos

Uma das grandes dificuldades das pessoas para meditar é que, sempre que param as atividades do cotidiano, a cabeça não para, pois está tomada pelas reminiscências, pelos pensamentos. Ficam dispersas e não conseguem meditar; e assim a vida se restringe a lidar com os problemas ou com as dispersões mentais que acontecem.

Nessas situações, as pessoas estão voltadas para o exterior, fora do seu próprio controle; estão simplesmente sendo reativas às solicitações que são feitas: do trabalho, da labuta ou das reminiscências mentais.

Uma oportunidade que a meditação e a prática de Yoga nos dão é a de agir, não apenas reagir. E agir num sentido: de nos percebermos, de percebermos onde estamos e de nos desapegarmos de tudo isso que nos solicita para podermos ficar inteiros e exercermos a nossa autoconfiança; enfim, de vivermos plenamente.

O foco é prestar atenção em quem de fato somos e em nossos sentimentos. Uma boa maneira é conhecer por contraste, por exemplo, a partir das emoções que sentimos. Ao meditar, podemos deixar que as emoções e sensações apareçam para que possamos reconhecê-las, analisá-las e tratá-las. Podemos sentir e registrar essas emoções que surgem. Será duplamente bom: ao registrarmos, nós nos afastamos da emoção, não somos mais o objeto daquela emoção, mas o sujeito; além disso, podemos nos tratar para sermos quem de fato somos. À medida que vamos retirando emoções desnecessárias do passado, idealizações e projeções, mais nos aproximamos de nossa essência.

O essencial é a constância, fundamental é garantir um horário. A disciplina só existe se estiver marcada no tempo e no espaço. O primeiro passo é marcar no tempo, ter um horário que seja seu, aquele que tem menos chance de ser sabotado; esse tempo passa a ser sagrado, é todo seu, à prova de interrupções. Em geral, antes do amanhecer e antes da meia-noite são horários muito bons (há menos possibilidade de interferências). E também não podemos nos esquecer de tomar cuidados com o espaço, de criar as condições de isolamento e conforto. É prático ter ao seu lado um caderno e uma caneta, ou um gravador, para registrar os insights que ocorrerem durante a meditação.

A prática diária é fundamental, independentemente de qualquer propósito específico. O atleta que treina regularmente está sempre preparado para um desafio eventual. Assim também, a pessoa que medita regularmente está sempre num estado de potencial tranquilidade para lidar, do melhor modo, com as situações. É nas muitas circunstâncias diferentes que demonstramos a prática de nossas virtudes. Se praticarmos com frequência as nossas virtudes, na hora em que surgir a circunstância, a virtude adequada brotará.

O exercício de Yoga, assim como qualquer outro, tem por característica nos deixar aptos a improvisar diante dos acontecimentos. Incorporamos de tanto praticar.

Mas, então, surge aquilo que não está tratado, o idealizado que ficou da infância e que há muito tempo nos prejudica (inconscientemente). São imagens distorcidas de nós mesmos às quais nos apegamos. Acreditamos nelas a ponto de as consideramos como virtudes, como partes verdadeiras de nós mesmos. Há vezes em que nos damos conta disso: porque percebemos, de alguma forma, ou porque alguém nos diz. A questão é saber se seremos capazes de considerar o que nos dizem e o que passamos a perceber em nós mesmos. Como é difícil perceber quem de fato estamos sendo!

Como disse a escritora Joanne Rowling, pelas palavras da personagem do diretor do colégio de bruxos do Harry Potter: “A pessoa mais feliz do mundo se olha no espelho e vê quem realmente ela é”. Felicidade é ser mesmo quem de fato somos. Ora, isso depende exclusivamente de nós mesmos. Nós estamos no comando desse processo. E, por isso mesmo, podemos prosseguir em nosso ritmo, percebendo aquilo que podemos mudar, cultivando uma disciplina pessoal de transformação.

A sabedoria da disciplina é estabelecer um ritmo que seja adequado a cada um de nós, de forma tranquila, para que possamos levar, com as condições mais favoráveis de tempo e espaço. Vamos indo, anotando, registrando os insights. O que surgir no cotidiano, será tratado com o que estiver ao nosso alcance. Quanto mais estivermos “treinados”, mas seremos nós mesmos e mais teremos chances de agir. E mesmo assim, podem ocorrer circunstâncias para as quais não estaremos preparados. A vida segue: podemos errar, “pisar a bola”, e tentar errar menos na próxima vez, porque a perfeição é uma casualidade e as novidades não respeitam o que já passou.


Thadeu Martins