quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A água na fonte dos símbolos e na Roda das Reencarnações

Em Yoga, não há qualquer determinação quanto à espiritualidade. O que se verifica é uma compreensão da natureza, da vida, da mente e da sociedade de forma bastante objetiva. Percebe-se também uma reverência de respeito cultural à mitologia indiana e hinduísta.

São inúmeras as divindades na mitologia da Índia. Ao nos referirmos a esses deuses, entramos em outro rumo cultural: aquele que oferece as alegorias que tratam do simbólico. Como diz o historiador norte-americano Joseph Campbell, a humanidade, por diversas razões físicas e culturais, tem necessidade de representar o mistério e, por isso, cria as referências alegóricas para lidar com a sua realidade simbólica.

Então, essa capacidade de nomear deuses, mitos, símbolos, arquétipos, responde às representações desse simbólico que está dentro da nossa vida. Quando falamos de alegoria – seja religiosa ou mitológica – nós estamos fazendo uma representação que nesta época, com estes recursos e com esta linguagem serve para indicar algo mais profundo que existe ou se manifesta em nossa essência. E essa essência não foi criada há dez, cem ou mil anos. Foi formada há milhões de anos, porque antes de surgir o ser humano na Terra, muitas outras formas de vida nos antecederam, além do fato de o nosso corpo constituir-se de muitas formas de vidas consorciadas (algumas visíveis só por microscópios).

Esse mistério cujos símbolos são continuamente representados por nós, por estórias, desenhos, imagens, vem reproduzindo alguns padrões ao longo da história da humanidade. Haveria padrões originais?

Talvez a água os contenha, talvez... pois, até onde se sabe, a vida surge com a água e com uma primitiva forma de pré-bactéria, que se desenvolve com a água. Nós humanos ainda somos constituídos de água em grande parte, cerca de 70% do nosso corpo é formado por água: algo que se emociona, como já se sabe. O emocional nos constituiu desde o princípio. Água é emoção, água determina a vida, emoção determina a vida, e nós somos emocionais.

Esta nossa essência emocional, no entanto, caracteriza tudo aquilo que chamamos de formação cultural. Essa interação com algum outro princípio de vida, uma pré-bactéria ou pré-molécula qualquer, constituiu a vida. À medida que foram se agregando, acabou levando a esta variedade extraordinária de organismos vivos que vemos hoje.

De fato, os cientistas, os biólogos, que estudam a origem da vida na Terra, com profundidade, quando vão às origens, encontram apenas isso. Não se fala em espírito ou alma, mas em algo que se emociona e que forma vida. Assim, os mitos, os arquétipos, poderiam ser compreendidos, em sua origem, como produto do relacionamento emocional da vida com o ambiente no qual a vida está inserida. A vida se emociona no ambiente em que se encontra e vai exibindo os seus padrões emocionais, que são até fotografáveis, conforme comprovou o professor Masaru Emoto, com o reconhecimento da comunidade científica atual.

O Dr. Emoto conseguiu registrar alterações em cristalizações de água, a partir de emoções que são oferecidas à água, por meio de diversas representações (sons, imagens, palavras etc.). Seja porque se escreveu uma palavra no rótulo do recipiente da água, seja porque se disse algo, porque se colocou uma música ou se fez uma reza, a água muda o formato dos cristais. Quando expomos a água a uma emoção, ela se transforma.

Se a água estabelece padrões (formas das cristalizações) que são reconhecíveis, de acordo com determinado tipo de emoção, isso é muito significativo, pois a água está na origem e no prosseguimento da vida; ela caracteriza padrões relacionados à emoção. Podemos dar nome a cada um desses padrões. Ou seja, estabelecer o modelo primitivo de cada uma dessas emoções. E podemos chamar isso como quisermos: de arquétipos, deuses, entidades, alegorias.

Denominar significa estabelecer nome, código, padrão de representação. O que hoje chamamos de arquétipos são padrões. Existem desde quando? Quanto mais no tempo poderíamos recuar, ou ir às origens, para encontrar esses padrões, esses arquétipos? De onde eles vêm? Se dissermos, hoje, que isso vem das partículas de água que nos constituem desde o início dos tempos, a mesma água da origem da vida na Terra, estaríamos coerentes com tudo o que se diz que se sabe.

Às vezes, a linguagem estritamente científica pode estar falando a mesma coisa que a linguagem estritamente religiosa, já que ambas tratam de representações da realidade para lidarem com a realidade. Na busca da origem, cada um pega um desvio do caminho, mas podem acabar chegando a um mesmo ponto, embora com distintas denominações. Diz o Budismo: nome e forma (nama, rupa), tudo ilusão.

Quando em Yoga falamos de um princípio ordenador, estamos nos referindo a um princípio social, que lida basicamente com a produção cultural. Alguém pergunta: “Existe mesmo a Roda das Reencarnações?” A resposta é sim, culturalmente existe, porque reproduzimos um comportamento a partir das gerações anteriores. A roda está rodando. Mas não estamos falando da mesma pessoa, reencarnada ao longo da história. Há quem afirme que sim. Mas seja o indivíduo ou não que reencarne, isso é irrelevante. Independentemente de haver a reedição do mesmo indivíduo, com certeza existe a transmissão de cada contemporaneidade: de cada época para a seguinte. Isso é indiscutível.

Somos, assim, herdeiros de várias tradições culturais que incorporam os simbolismos originais e os representam e os incutem em nossos relacionamentos e comportamentos sociais. Cada pessoa, dentro dos limites que os seus contemporâneos aceitem, poderia criar algo novo ou escolher qual das possibilidades herdadas seria melhor para si mesma (filosofia, religião, comportamento político).

O Yoga é um exemplo desse tipo de composição de tradições culturais, no contexto indiano de seu surgimento, quando o sábio Patânjali acrescenta um ser especial à sua sistematização (o Yoga Sutra), para atender ao imaginário, místico, heróico dos hinduístas. Essa personagem é Ishivara, que representa o princípio divino da vida. Embora tal personagem não tenha nenhuma aparência corpórea ou figura a si associada.

Ao praticarmos Ishivara Pranidhana, estamos exercendo a atitude de nos entregarmos à vontade divina. Trata-se de um dos cinco principais comportamentos estimulados em Yoga (Nyamas): cultivar a pureza, o contentamento, o esforço de realização, o estudo, e o render-se à vontade divina (literalmente “deixar fluir”). Ishivara é o ser divino, a representação de uma divindade, de um princípio divino que permite o fluir da vida. Assim, o divino, para Patanjali, não é um velho barbudo, é sim um princípio emocional, que está na origem de tudo.

Pode-se observar que essa orientação cultural deriva da compreensão do princípio físico do fluido da vida: a água. Não por acaso, a origem lendária diz que o deus Shiva transmitiu os ensinamentos originais do Yoga a um peixe (Matsia) que observava os diálogos entre o deus e sua parceira feminina Shakti.

Ao mesmo tempo e à mesma época, a escola gêmea do Yoga, o Sâmkya, é isenta de alusão a divindades. Trata-se de uma epistemologia classificatória, uma visão estruturalista da realidade, na qual não há lugar para uma representação divina. Embora esteja totalmente integrada ao hinduísmo, como uma de suas principais escolas de pensamento. Nela há um apenas um princípio dualista, do qual tudo se deriva: manifestação (Prakriti) e não-manifestação (Purusha). Enquanto o Sámkhya sistematiza a compreensão da natureza estrutural da vida, o Yoga sistematiza a compreensão dos comportamentos social e individual, da mente, da vida.

Thadeu Martins