sábado, 12 de novembro de 2011

Viver o viver

A vida tem uma origem dual, da qual tudo se deriva: manifestação (Prakriti) e não-manifestação (Purusha), segundo o Sâmkya, escola filosófica hinduísta que apoia conceitualmente a escola do Yoga.

Mas, afinal, o que é o não-manifestado, o não-material, nesse contexto? Não se trata de uma representação divina, pois o sentido dessa dualidade é lógico: observa-se manifestação em relação a algo que não se manifesta. Portanto, o não-manifestado é um referencial em relação a tudo mais que se manifesta e, por isso, é absoluto.

Purusha é esse princípio universal, esse referencial absoluto, em relação ao qual se manifesta Prakriti, a natureza material da vida. Se as nossas individualidades são manifestações de forma singular, então Purusha está em cada um de nós? Claro, pois se é absoluto está em todo lugar e em qualquer lugar.

Mas a cultura indiana cria também uma palavra para se referir a essa individualização de Purusha: Atma. Cuja grafia e pronúncia lembra alma e que, talvez na origem grega da palavra alma (aquele que se liberta da cidade quando morre), poderia ter o mesmo significado simbólico: o absoluto em cada um de nós, liberto das manifestações sociais e outras (e que não precisa morrer para se liberar, pois já o é).

O meditar, o entrar em si, é buscar o referencial, interno. Mas pouco importa se vamos encontrá-lo ou não. O que importa é que quando abrimos mão da iniciativa, do agir e do interferir, e nos propomos a ouvir, a sentir e a receber, reduzimos as manifestações. Assim, vamos nos deixando integrar a um referencial absoluto. Esse é o conceito e o propósito principal. São consequências a tranquilidade, a harmonia e o bem-estar decorrentes do meditar.

Dessa forma, quando falamos em busca de equilíbrio ou busca de harmonia, o sentido é de estarmos em harmonia com o nosso tempo, com o contexto social no qual estamos, mas a sintonia principal é com esse referencial, não-manifestado, mais interno: Atma, o Purusha em cada um de nós.

Praticamos a atenção, a harmonia, o perceber, buscando esse referencial dentro de nós. Esse absoluto fica em nenhum lugar ou em qualquer lugar específico. Onde ele estiver ele vai estar, porque é absoluto.

O exercício é, portanto, buscarmos em nós mesmos esse referencial. Por exemplo, mentalizamos uma luz dourada, expandimos essa luz por todo o universo, até nos sentirmos parte de uma grande unidade... Você está, nem precisa dizer onde, basta dizer que está, ou que você é.

Esse é o movimento, uma tendência, uma orientação. Seria bem pretensioso afirmar: “atingi a iluminação, cheguei ao referencial absoluto”. Tudo bem, mas logo alguém vai te tirar dele, seja por qual for o motivo. Afinal, o estado de equilíbrio é o mais instável que existe. O que há de mais equilibrado é o movimento. A melhor imagem é a da dança: dançar conforme a música, deixar-se levar, surfar cada onda sonora ou do mar. Mas nós não nos deixamos levar apenas, nós vamos junto. Temos a intenção, o propósito de viver. Eis o propósito: viver o viver.

Thadeu Martins