sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O ser e a Roda

Em minha releitura do Yoga Sutra, prossigo pelo caminho de Kaivalian – Kaivalian Pada –, nome do último capítulo do texto de Patânjali. Vou revendo os sutras e os vários comentários. Basicamente, há um grande comentarista desse texto, Vyasa, que é até mais lendário que Patânjali; destacam-se também Vachaspati (Séc. X) e Bhikshu (Séc.XV) entre os históricos. Eles fazem uma discussão filosófica, conforme suas épocas. Quem me apresenta a interpretação deles é o Dr. Jayadeda Yogendra, em textos que eram utilizados no Yoga Institute, na época em que lá estive como aluno residente (1983).

O Dr. Yogendra reproduz as palavras desses comentaristas e faz correlações com as outras linhas filosóficas hinduístas, que tratam dos mesmos temas em seus contextos doutrinários. Então, para cada sutra, são várias páginas de discussão. O sutra que eu li esta semana está bem fixado na importância de serenar a mente. Alguém pode achar estranha essa ênfase no último capítulo, pois é assim que começa o Yoga Sutra, quando Patânjali diz que “Yoga é serenar as movimentações da mente”. É verdade; mas, nesse capítulo final, ele discute o porquê disso, e vai aos píncaros da filosofia indiana.

O mestre lembra que, no cotidiano, as minhas experiências geram resultados, que são percebidos por mim, com uma emoção associada a cada significado (ou vice-versa) e que cada percepção, associada à emoção e significado, gera nova memória. O que os comentaristas tradicionais dizem em relação a isso é o seguinte: a tal da mente é a própria memória, ela é constituída por essas impressões que ficam registradas, das experiências de vida. E essas experiências, por mais insignificantes que sejam, ficam para sempre.

Na compreensão poética dos indianos, ficam para sempre mesmo. Segundo eles, existe o Samsara, a roda das reencarnações. Tudo o que eu faço cria karma, e esse empurra a roda, que vai girando. Então, tudo o que eu faço agora, gira a roda, que vai gerar consequências a seguir. A roda não para nunca, segundo os indianos. A dica deles é cessar as movimentações da mente para não gerar karmas e deixar de reencarnar a vida inteira, por várias vidas.

Se eu olhar de outro ponto de vista, menos poético, também posso perceber o seguinte: existe um componente genético, afinal, fui gerado por um pai e uma mãe, que também tiveram muitas experiências e memórias; os cromossomos também fazem parte desse conjunto memorizado. O novo ser que surge da junção desses cromossomos traz memórias ancestrais, que desse modo remontam até a primeira coisa viva que surgiu na Terra, uma cianobactéria que se juntou com uma molécula de água, há 3,5 bilhões de anos. É uma visão mais objetiva, mas razoável, de que eu trago uma memória permanente, para a qual eu, você e todo o mundo vive acrescentando algo, com as experiências pessoais. E assim a roda continua a girar.

Nos sutras, Patânjali destaca a conhecida fórmula: cessada a causa, cessa o efeito. Se eu consigo serenar a mente, neutralizar essas memórias que ficam pululando, eu posso cessar o estímulo para ações que não teriam nada a ver com o presente, mas sim com as memórias. Na medida em que eu lidar com o presente sem criar mais complicações, eu diminuirei o movimento da minha roda pessoal.

Patânjali alerta que grande parte dos desejos e anseios (provocadores de ações) não são originais; eles são reminiscências dessas vidas passadas, dessas memórias, que vieram para ficar e ficarão, mas que eu, você e todo o mundo pode neutralizar, na medida em que serenar a mente.

E nesse ponto, o Dr. Jayadeda Yogendra chama atenção que há vários tipos de ação. Aquelas ações nas quais existe apego e que são as que vão criar problemas, porque se está apegado – ou porque se está interessado ou com medo do resultado. Está havendo identificação e interesse. Eu me identifico, fico interessado e me apego. Pronto, começam as complicações.

O Dr. Jayadeda diz que, de todas as ações, a que cria menos karma é a mental. Compreender, meditar, desejar o bem para os outros, enfim, ação mental que condiciona o bem, eis a melhor ação. Quanto mais a ação for sutil e estiver longe da matéria, menos será propícia a criar apegos e interesses no resultado da ação.

Os indianos falam em quatro tipos de ação kármica, conforme criem dor, prazer, dor e prazer, ou nem dor nem prazer. O karma da ação que provoca dor é o pior caso, uma ação material e maligna. O karma do prazer é aquele em que se faz uma boa ação, mas interessada pelo prazer do resultado, e por isso geradora de apego. O melhor karma seria o da ação desinteressada, em que faço porque é o que se deve fazer, não me envolvo no resultado dela, não sinto nem dor nem prazer, porque não há nada disso em jogo, não há nada pessoal.

Assim, é a ação no estado de kaivalian, é o agir com integridade, isolado da ação kármica, consciente de que a minha individualidade é mera circunstância, que nada é pessoal, e assim posso seguir nesse caminho, driblando naturalmente os karmas.

Thadeu Martins

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Para fazer a natureza acontecer

Estou relendo o Yoga Sutra, de Patanjali, e tenho me dedicado bastante ao último capítulo. No estudo, venho usando duas fontes: um livro resumido, que apenas cita os sutras, e também os textos das aulas do Jayadeva Yogendra, que eu trouxe do Yoga Institute. Nesse material, o Dr. Jayadeva se aprofunda em cada sutra, com dezenas de páginas de comentários.

Esse último capítulo tem características bem diferentes dos outros três. O nome é Kaivalian Pada. Kaivalian é uma palavra-chave em Yoga, que vale horas de conversa! Há várias possíveis traduções: aniquilamento, isolamento ou integração. O sentido é de estar tão íntegro consigo mesmo, tão próximo do "eu interior" (atma), que o agir torna-se o mais adequado. Assim, age-se com total esclarecimento.

Esse estado de kaivalian é a síntese de um processo: o serenar a mente, o desenvolver atitudes e habilidade sociais e individuais de compreensão e o cultivar o estado de samadhi – de ver a realidade como ela é.

Kaivalian também pode significar aniquilamento, no sentido de destruir os filtros com que se percebem a realidade. Então, não haveria mais dualidade, bem ou mal, e outros grandes contrastes. Passa-se a lidar com os fatos como eles de fato são. É um estado de plena unidade.

É difícil chegar a uma definição mais precisa de kaivalian, por isso estou lendo e relendo os textos. Mas tenho me interessado bastante por dois aspectos: as reminiscências, as memórias, sempre ficam dentro da mente, por mais que eu possa compreendê-las ou neutralizá-las ou apaziguar a mente; o outro ponto que achei importante é a percepção de que o estado de samadhi vem e vai, vai e vem. Ou seja, por mais que eu pratique a meditação, essas memórias podem vir à tona e me retirar desse estado. Entre essas várias reminiscências, que vão estar comigo por toda a vida, algumas são muito antigas e podem até anteceder a minha existência, na medida em que sejam registros transmitidos de forma hereditária, por exemplo.

Patanjali diz, lá no Yoga Sutra, que dessas memórias todas, que estão na origem de muitos dos meus comportamentos, principalmente defensivos, está o medo e a negação da morte ou, de forma afirmativa: a esperança de permanecer vivo. Então, seja no negativo ou no positivo, eu, você e todo o mundo traz essa compulsão de vida que leva a todo de tipo de ações ou reações que promovam a eternidade. Ao mesmo tempo, isso é afirmação do desejo de permanência, de continuidade, e negação da morte, do fim.

Mas o fato é que me estou referindo a algo inevitável: se eu nasci, vou morrer um dia. Já que isso eu aceitei, não há como fugir, então é melhor lidar com as outras razões do sofrimento, os kleshas: a aversão àquilo que me ameaça ou o anseio daquilo que me dá prazer. No entanto, Patanjali diz que na raiz do sofrimento está o egotismo, quando fico focalizado apenas em mim mesmo, sem perceber o todo. Sofro por ignorar o contexto maior, supervalorizo-me como um eu especial, cultivo aversões e anseios e fico cultivando a permanência ou a negação da morte. Seriam esses, portanto, os cinco motivos de sofrimento.

No último capítulo do Yoga Sutra, Patanjali destaca essa compreensão e dá a dica: eu posso cultivar o esclarecimento. Ele começa o quarto capítulo comentando que a realização de kaivalian pode se dar por uma herança genética (para quem já veio pronto), por ingestão de substâncias, por rituais com mantras ou por samadhi. Porém, enfatiza que, desses quatro, o melhor mesmo é o de samadhi, pois nenhum dos outros tem constância, continuidade, e podem estimular a ilusão de onipotência. Ainda melhor: samadhi não tem contraindicação! Na visão de Patanjali, o estado de samadhi – que corresponde à moksha, liberação da consciência – é que é o mais estável, consistente, perene e que vale a pena cultivar. Interessante, não?

Por isso essa releitura tem me chamado tanta atenção. E como o texto se aproxima da filosofia! Por muitas vezes eu percebo que há uma fantasia de que o praticante de Yoga teria poderes mágicos, seria um ser especial, diferente, que dispensaria o estudo, porque o conhecimento chegaria até ele pela iluminação. Mas quanto mais eu leio Patanjali mais eu percebo que ele é muito direto nesse aspecto. Na verdade, ele refere-se à estratégia de vida, que Yoga é de fato. Ele fala, literalmente, que o único poder que o yogue tem é o de esclarecer a realidade e, no máximo, o que ele pode fazer é retirar alguns obstáculos para que a natureza possa acontecer. Uma boa imagem é a de um lavrador que, com a sua enxada, abre caminho para a água escorrer do riacho até a plantação. Não é ele quem faz a plantação crescer, mas sim a terra, o sol e a água (isso foi dito originalmente por Vyasa, o principal comentador do Yoga Sutra, há séculos).

Isso me faz lembrar os quatro verbos da prática da amorosidade: esclarecer, compreender, aceitar e prosseguir. Eles formam quase um método! Em Yoga, também posso utilizá-lo, mas para esclarecer, tenho que ter conceitos anteriores. O tempo todo, eu tenho que ser capaz de esclarecer e compreender como a natureza acontece, para, então, perceber quais obstáculos posso retirar para facilitar o que a natureza pode realizar. Para mim está implícita, assim, uma atitude de respeito, de aceitação de que é a natureza e não eu quem realiza. Tenho, portanto, a humildade de reconhecer que apenas colaboro, e isso faz toda a diferença!

Quantos obstáculos precisam ser retirados em mim, para que a natureza humana se revele no seu melhor? Que obstáculos nem pensar em retirar, para não revelar o seu pior? Embora o que seja melhor ou pior dependa, em grande parte, das circunstâncias... Como disse, essa conversa pode render horas!

Thadeu Martins

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Um mergulho no rio do Hinduísmo

Estive revendo o Yoga Sutra, sob outros pontos de vista, para compreendê-lo em sua relação com o Hinduísmo, desde a época conhecida como a do conhecimento revelado (os "Vedas"). O período "védico" estabeleceu uma base tão consistente que veio a determinar a principal corrente da cultura hinduísta. Essa base concretizou-se pelos textos revelados, os Vedas, cujo saber foi mantido e divulgado, oralmente e por escrito. A linguagem dos Vedas seria até anterior ao Sânscrito.

No período posterior ao das revelações, surgem as Upanishads, que finalizam os Vedas. Já não se trata mais de revelação, mas de compreensão prática e aplicada da revelação. Esse período caracteriza o surgimento das escolas do pensamento filosófico indiano, dentre elas, o Yoga.

Os guardiões das revelações védicas são os brâmanes, da Índia. E como todas as tradições, os Vedas foram sendo transmitidos dos mais velhos para os mais jovens, de modo a alcançar toda a população. Porém, além do conhecimento geral dos Vedas, extensivos para toda a sociedade, cada família transmite o seu próprio conhecimento e também segue reverenciando a sua própria tradição, os seus "segredos e receitas" e os seus mestres ancestrais.

No contexto da sociedade hinduísta, há então uma corrente principal, originária dos Vedas, e vários afluentes, que são as das várias famílias, com suas próprias tradições. Algumas dessas tradições familiares seguiram em paralelo, mas, por vezes, chocaram-se com a tradição principal. Foi o caso do Budismo, cuja origem legendária surge de um príncipe que segue seu próprio caminho, contrapõe-se à tradição principal - não em todos, mas em alguns aspectos -, conquista multidões de seguidores e espraia-se pelo mundo. O Jainismo também surge em uma tradição familiar, dentro do Hinduísmo, e prossegue com imenso vigor. O adepto de maior exemplo conhecido no Ocidente é Mahatma Gandhi.

O Tantrismo seria um nome genérico para as tradições familiares, não tão extensivas e notáveis como as linhas do Hinduísmo citadas, do Budismo ou Jainismo. Quando se fala em Tantra, fala-se das várias tradições, que são familiares, que estão no grande rio do Hinduísmo, mas que também seguem por caminhos próprios e restritos.

Assim, quando se fala em Tantra, não se está referindo a uma escola apenas, mas a uma variedade de tradições familiares paralelas. Já o Yoga vem da tradição principal. Mas que, no entanto, também decorre de uma conotação político–social da época de seu surgimento. Isso é curioso, pois o Yoga vem da tradição dos Vedas e das consequentes Upanishads. Entretanto, o seu surgimento coincide com o período em que o Budismo se torna muito forte e competidor com o Hinduísmo principal. Isso causa um desconforto para os brâmanes, os quais, afinal, vivem da arregimentação da sociedade que é influenciada por eles.

Em termos históricos, o surgimento do Yoga é aceito e incluído pelo Hinduísmo tradicional, de certo modo, pela sua grande aceitação popular e potencial reação ao crescimento social do Budismo, seu contemporâneo.

Na visão do Hinduísmo, o mundo existe, eu existo, mas a minha relação com o mundo é imaginária, principalmente porque a percepção individual da realidade é dada pela vivência pessoal de cada um. Eu, você e todo o mundo percebe o mundo de forma diferente entre si e, portanto, o modo como se vê o mundo vai condicionando o modo como se continua a ver o mundo. Assim, deixa-se de ver muitos aspectos da realidade por causa desses naturais condicionamentos. Dessa forma, como a percepção da realidade determina a realidade, qual das percepções é a real?

Então, surge Buda e também diz que tudo é uma ilusão, mas ele é muito mais radical: "Eu também sou uma ilusão, eu não existo!". Sua concepção filosófica contesta a visão da tradição; para ele a individualidade do "eu" não tem sentido, é uma mera manifestação percebida do princípio divino da vida. Porém, a intensidade do misticismo oriental era e é tão forte que o Buda, que não era sacerdote e não queria fundar religião nenhuma, de repente estava cercado de fiéis.

Patanjali, de certo modo, contrapõe-se a essa visão e afirma: "Eu existo, o mundo existe, a realidade existe; a minha relação com a realidade é que é ilusória". E ainda mais, ele faz alusão a um ser especial, que representa a divindade da vida: "Ischivara", o princípio divino, ao qual os yogues se rendem, submetem-se, entregam-se. O yogue trata de serenar a mente, para ter uma visão clara, apreender a realidade e nela agir com a liberdade do esclarecimento.

Essa sistematização do sábio Patanjali prosseguiu como uma escola, que dá sentido de aplicação prática a todo conhecimento tradicional, dos Vedas e dos Upanishads. Sabiamente foi incluído pelos brâmanes, pela eficácia de aceitação popular, capaz de compensar a crescente aceitação do Budismo, em sua época. De fato, na Índia, depois de passado o reinado do rei Ashoka, século III-aC, o Budismo não teve a mesma expansão que obteve, por exemplo, na vizinha China.

O Yoga Sutra de Patanjali, à semelhança do Budismo, propõe oito princípios para o agir adequadamente na vida. Indica oito degraus de comportamento: comportamento social adequado, comportamento pessoal adequado, controle adequado do corpo, controle adequado da energia, controle adequado da mente, a concentração, a contemplação e o estado de Samadhi. De modo que se possa perceber a realidade com clareza e nela agir-se com integridade ("Kaivalian").

A proposta do Patanjali, assim como a do Buda, era a de um comportamento individual e social, em que se está tão íntegro, que se podem exercer as várias personas e também ser independente, liberto, íntegro. Assim, faz-se o que de fato deve ser feito, em estado de absoluta clareza, com a mente serena.

Thadeu Martins

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Relaxamento essencial

O relaxamento talvez seja uma das práticas mais fáceis, simples, agradáveis e efetivas em Yoga e que propicia o estado de não-agir, que é cada vez mais raro em nossa vida, em que agimos seguindo receitas ou rotinas, na maioria das vezes. Algumas delas estão profundamente instaladas dentro de nós, como verdadeiros programas básicos de computador.

Isso significa também que essas receitas são formas de inteligência. No entanto, quando ficamos sem fazer nada, um outro tipo de inteligência está em atuação. Nosso corpo continua a funcionar de forma perfeita, graças ao sistema nervoso autônomo. Essa é uma inteligência vital, essencial, à qual cada um de nós acrescenta um aprendizado, daquilo que é apreendido no cotidiano. A partir de nossas experiências, passamos a adotar outros modos de viver e de nos relacionarmos. Então, estamos falando de níveis de inteligência: a inteligência essencial e todas as outras inteligências, nas quais acrescentamos rotinas e eficiência.

Quando relaxamos, de início, usamos um pouco de nossa inteligência adquirida, operacional, para comandar o relaxamento. Então, fechamos os olhos, vamos sentindo nosso corpo, parte por parte, até relaxarmos por completo. Nesse momento, não precisamos mais comandar. A nossa inteligência operacional pode descansar.

Isso é algo extraordinário e ao mesmo tempo tão comum! Deixamos o nosso corpo viver por ele mesmo. Os condicionamentos que nós criamos com a nossa inteligência operacional – preocupações, lembranças ou projeções – não têm oportunidade de vir à tona. Nós nos liberamos dessas maquinações, o que torna o nosso dia muito melhor. Ficamos muito mais felizes, em paz.

Se o único exercício de Yoga que se fizesse ao longo de nossa vida fosse o relaxamento, isso já seria a glória. Em termos de saúde, o relaxamento diário traz enormes benefícios. É possível dizer que quase 80% dos males que nos afligem são doenças adquiridas. E são adquiridas porque se tornam condicionamentos mentais. Ao relaxarmos, permitimos ao nosso organismo não se submeter àquela programação mental da doença.

É por isso que os médicos dizem: “repouso absoluto”. Durante o repouso, o nosso organismo se cura. Então, é bom todo o mundo repousar bastante. À medida que fazemos isso, vamos criando o hábito de desligar a inteligência operacional e ligar a inteligência essencial, que vai descondicionar as doenças. Assim, recuperamos a nossa vitalidade que, por alguma razão da vida, estava abalada. Praticando isso a vida inteira, vamos diminuindo os males adquiridos.

Claro que sempre haverá algo mal resolvido da infância e que ficou reprimido dentro de nós. Conforme explica a psicologia, nós reproduzimos comportamentos que nos fazem vivenciar uma determinada situação ou emoção que reprimimos no passado. Nem lembramos dessa sensação, mas a realizamos. E tendemos a praticar inúmeras vezes, porque, lá no nosso íntimo, temos a esperança ou o projeto de desta vez nos sairmos bem daquela situação em que, por alguma razão, temos nos saído mal. Até as relações que estabelecemos, de algum modo, são com pessoas que nós escolhemos, porque nos permitem reproduzir essas situações.

É claro que há várias armadilhas nisso. Aquilo tudo já passou, não foi assim tão grave – e se foi, já passou há muito tempo. De fato, aquilo nunca vai se resolver mesmo. Talvez o que nos reste seja tomar consciência e perdoar, aceitar a situação. Assim, nós nos libertamos. Vamos nos liberando daquele comportamento nocivo, repetitivo, que nos faz sofrer. Paramos de ficar encucando, de colocar culpa nos outros ou em nós mesmos.

A forma mais eficiente para alcançarmos essa liberação é começarmos a prestar atenção nesses fatos que se repetem em nossa vida. Por que isso acontece com tanta frequência? Se é sempre com você, não dá nem para colocar a culpa nos outros. Provavelmente, você se colocou nessa situação em muitas e muitas vezes.

De algum modo, nós criamos essa situação. Tentamos reproduzir a mesma experiência inúmeras vezes, para ver se desta vez resolvemos bem. Mas a chance de nos darmos mal, repetidamente, é muito grande. Afinal, aquilo não está resolvido. O melhor é parar e prestar atenção em nós mesmos, em nossas emoções características e nos comentários que as outras pessoas emitem sobre nós, para esclarecer e compreender o que estamos reproduzindo inconscientemente.

Assim, vamos tornando consciente algo que acontecia de forma inconsciente: os sentimentos associados às situações desconfortáveis; os próprios comportamentos que propiciam as situações desconfortáveis. Esse esclarecimento nos dá uma grande oportunidade de nos compreender melhor e aceitar ou não aquelas situações, para rever e até mudar o nosso comportamento habitual. Com certeza, isso nos dará uma condição de liberdade, de liberação, de paz, muito maior do que aquela que antecedia à tomada de consciência. Desse modo, damos oportunidade para a nossa inteligência operacional atuar para nos libertar daquilo que nos incomoda.

Depois desse prestar tanta atenção, que dá um trabalho enorme, que não é físico, mas mental, de percebermos o que andou fazendo a inteligência operacional (depois de tanta encucação), o melhor a fazer é um bom relaxamento, um trabalho físico de não agir. Damos, então, uma chance à inteligência essencial, por simplesmente não fazer nada, deixando-a atuar a nosso favor, como ela sempre faz.

Thadeu Martins

sexta-feira, 20 de julho de 2012

E viva o presente!

Ao longo de nossa vida, fomos desenvolvendo habilidades extraordinárias para lidar com os outros, com o mundo, para sermos aceitos e compreendidos. Isso desde muito pequenos. Tivemos que nos adaptar às várias circunstâncias, ao grupo e a nós mesmos para seguirmos sendo incluídos. Mas, de algum modo, alguns desconfortos podem ter surgido.

Muitas vezes, tentamos esquecer ou encobrir o desconforto, mas ele prossegue nos incomodando. A reminiscência aflora independentemente de nossa vontade. São lembranças de algo que não ficou bem resolvido e, volta e meia, ressurgem. Em Yoga, buscamos dar atenção a essas reminiscências de tal modo que possamos compreendê-las, resolvê-las e nos liberarmos delas.

Há muitas possibilidades de lidarmos com as reminiscências. A Psicologia possui vários recursos, as religiões também, de certa maneira. E todos nós, a partir de nossas próprias experiências, também vamos aprendendo a lidar com essas reminiscências recorrentes. O sábio Patanjali destaca que na prática da meditação, em que estabilizamos a nossa relação física com o mundo, criamos condições ideais para serenar a mente. Nesse estado, podemos apenas descansar, ficar em paz. O que já é maravilhoso.

Mas também pode acontecer de algumas daquelas reminiscências insistirem em aparecer enquanto meditamos. Pode ser algo corriqueiro, como um problema de trabalho para o qual temos que dar uma solução. E de repente, para a nossa surpresa, pode surgir uma solução para esse problema. Conforme afirmam os estudiosos no assunto, os insights são captados numa região que está além do espaço-tempo, à qual temos acesso quando não estamos agindo, quando estamos fora do agir intencional.

No entanto, também pode surgir uma daquelas reminiscências para as quais temos que dar especial atenção, que nos interessam tratar. Nesse caso, o melhor é deixar fluírem os pensamentos relacionados a essa reminiscência assim que ela aparecer. Vamos puxando o fio da meada: os pensamentos encadeados que essa reminiscência pode produzir. Continuamos tranquilos e numa posição muito privilegiada, porque no momento em que adotamos essa intenção, nós nos tornamos um observador de nós mesmos. Criamos, assim, um distanciamento, que esvazia as emoções e permite prosseguir a observar.

Este é o artifício da meditação: criar um distanciamento que nos permita ser dual; somos aquele que vivencia a experiência e, ao mesmo tempo, quem observa aquela pessoa que a vivencia. Isso faz com que as emoções fiquem deslocadas. Não sofremos muito nem pouco, também não nos alegramos nem muito nem pouco. Apenas nos observamos.

As reminiscências estão assentadas num terreno dual: significados e emoções. É uma emoção associada a um significado e as duas juntas podem não estar bem resolvidas dentro de nós. Enquanto não resolvermos, aquilo volta.

Então, a dica é atuar em si, quando isso voltar à tona, tentar responder a duas perguntas: qual é o significado dessa reminiscência e qual é a emoção que sinto em relação a essa recordação? Pode ser uma infinidade de coisas. Percebeu o problema, pare e volte à causa até chegar onde tudo começou. Assim vamos chegar à origem daquele sentimento. Às vezes, a origem pode estar bem distante, na época em que éramos crianças. Outras podem ser recentes, mas, provavelmente, têm alguma analogia com outra questão bem mais anterior.

O importante é perceber o que isso significa para cada um de nós. Seja lá qual for o significado, certamente estará associado a uma circunstância e à pessoa que o sente, claro. Alguém pode dizer que isso não é meditação, é autoanálise. Tudo bem, faz parte do processo meditativo essa autoanálise.

As movimentações da mente, segundo Patanjali, são de duas naturezas: pensamentos e reminiscências. Pensamento é quando ativamente maquinamos, fazendo projeções ou equacionamentos. Já as reminiscências surgem independentemente de nossa vontade. O propósito na meditação é serenarmos tanto os pensamentos quanto as reminiscências. E no caso de querermos compreender as reminiscências recorrentes, podemos analisá-las fazendo perguntas e até mesmo anotando as respostas, intercalando a análise com a meditação.

Se nos habituarmos a fazer isso com regularidade, com certeza a nossa vida vai melhorar e muito.

Thadeu Martins

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Yoga Sutra Básico

Os fundamentos do Yoga estão sintetizados no Yoga Sutra, do sábio Patanjali, uma espécie de livreto de cordel, no qual se sucedem cento e noventa e cinco verbetes, quase poéticos, cheios de sabedoria para se viver bem. Em resumo, ele chama atenção para serenarmos a mente, ficarmos em paz, encararmos a vida com naturalidade, evitarmos emoções exageradas e cultivarmos o Ser, em vez de cultivarmos aborrecimentos reais ou potenciais.

Como tudo o que é cultivado tende a crescer, se cultivarmos um problema ou ressentimento, daí a pouco ele tenderá a ficar insuperável. Se, em vez disso, focalizarmos alguma solução ou percepção positiva, mesmo que parcial e provisória, nos tornamos capazes de superar as dificuldades.

O Yoga é um modo de viver em que se praticam quatro atitudes básicas: perceber onde se está; perceber-se onde se está; cultivar o desapego – no sentido de perceber o que é adequado e suficiente ao momento, às circunstâncias e aos nossos valores; e cultivar a autoconfiança. Essas seriam as quatro pré-condições para agir e atuar na vida. O sábio Patanjali reforça desse modo a autoaceitação, que é condição essencial para nos relacionamos bem conosco mesmos e com os outros no mundo.

A prática de Yoga trabalha os condicionamentos do corpo e da mente e propicia um modo de viver com tranquilidade para a superação e o autoaperfeiçoamento. As posições (ásanas) não têm o propósito de forçar uma elasticidade. Nelas, o mais importante é estar presente, aumentar as condições de atenção conosco mesmos, para perceber se estamos bem. Sentimos isso dentro de nós mesmos, em cada postura de exercício ou situação de vida, e agimos para o bem e para estarmos bem.

Também a ética é incluída na prática de Yoga, por um lado, com ênfase negativa (yamas), em evitar o surgimento ou a expansão de ofensas, violências, falsidades, dispersão do Ser, roubos, cobiça e inveja; por outro lado, com ênfase positiva (niyamas), em cultivar a pureza, o contentamento, a perseverança, o estudo, e a rendição à vontade divina da vida.

Os controles da energia (pranayamas) se dão por meio do controle da respiração, da percepção de cada etapa do respirar e dos seus efeitos na mente e no bem estar físico. Essa prática deve estar presente em todos os momentos em que estamos conscientes, e não apenas durante os momentos de exercício.

Entretanto, a maior ênfase do Yoga Sutra está nas práticas de introspecção, concentração, contemplação e transcendência do viver apenas social. Esses quatro estágios físicos e mentais, se praticados regularmente, levam ao estado ideal de liberação (moksha), objetivo e meta transcendental dos yogues.

Thadeu Martins

quarta-feira, 23 de maio de 2012

De si a si mesmo

No nosso cotidiano, é fundamental percebermos onde estamos e nos percebermos nesse lugar e situação. Essas duas atitudes estão associadas aos exercícios de Yoga em que nos alongamos na vertical, na lateral ou ficamos sentados com a coluna ereta. Nessas posturas, damos especial atenção à nossa respiração, ao nosso ritmo essencial.

Também cultivamos duas outras atitudes em Yoga: o desapego ou não-ação, em que abrimos mão do agir exagerado, e a autoconfiança. Praticamos o desapego nas posturas em que nos curvamos para frente, mostrando a nuca, e nos exercícios em que ficamos de cabeça para baixo. Em contraposição a essa atitude de abrir mão do agir, praticamos os exercícios de nos curvarmos para trás, inspirando de peito aberto, estimulando, assim, a nossa autoconfiança.

Ou seja, são quatro atitudes – perceber onde se está, perceber-se, desapegar-se e cultivar a autoconfiança – propiciadoras de um agir com tranquilidade e eficiência. Agiremos naquilo em que temos condições de realizar, em que o ambiente é favorável, em que estamos sintonizados e no qual sentimos confiança.

Então, os exercícios físicos em Yoga têm o propósito de nos descondicionar para deixarmos um pouco de lado as nossas personas, as máscaras habituais e cultivarmos essas quatro atitudes, com foco no aspecto social. As posições meditativas, por outro lado, têm o objetivo de nos voltarmos, ainda mais, para nós mesmos. Usamos toda a harmonização que exercitamos fisicamente em prol da nossa tranquilidade interior.

Segundo os sábios, quando a nossa mente está serena - depois da meditação, por exemplo -, ela se torna espelhada como a superfície de um lago, bem tranquila, que reflete a realidade. Nossa mente, nesse estágio, refletiria uma realidade que não é esta, exterior a nós. Seria, portanto, uma realidade de apreensão direta, pela serenidade, da realidade dentro da qual esta, à qual estamos habituados, encontra-se.

O sábio Patanjali, sistematizador de todo o conhecimento em Yoga, faz sugestões de comportamento social. São verdadeiros códigos de conduta adequada ao praticante de Yoga. São os dois primeiros de um conjunto de oito grupos de comportamentos: (1) restrições (Yamas),(2) recomendações/estímulos (Nyamas), (3) controle do corpo (Ásanas, posturas), (4) controle da energia e da respiração (Pranayamas), (5) introspecção, (6) concentração, (7) contemplação, e (8) o estado de Samadhi.

Os Yamas e Nyamas são regras bem simples. Basicamente, Patanjali afirma que o praticante de Yoga não ofende, não mente, evita se dispersar nas emoções exageradas, não rouba e não cobiça. Além desses cuidados, é estimulado o cultivo da pureza, do contentamento, da persistência, do estudo e do entregar-se à vontade divina.

Então, a prática de Yoga tem uma pequena parte de exercício físico e uma grande ênfase em exercício social. E seja um ou outro, os dois conjuntos de práticas têm um propósito que não é nem social nem físico. Podemos dizer que é espiritual ou de transcendência (daqueles dois aspectos espaço-temporais).

Por fim, a imagem citada anteriormente, das águas plácidas de um lago que reflete a realidade, é um convite a que deixemos a mente tranquila, refletindo a nossa natureza interior. Afinal, é no mundo interior onde mais temos condições de humanizar e vivenciar a graça do convívio. E o melhor: está sempre à nossa disposição!

Thadeu Martins

quarta-feira, 14 de março de 2012

O velho fim do mundo

A humanidade está sempre passando por ciclos de mudança e a ideia de fim está muito enraizada em nós, pois está associada não apenas a transformações, mas também à morte: algo que nos acompanha desde que nascemos e está sempre presente em nossa cultura.

Mas nem todas as interpretações de mudanças acentuam os aspectos fatais. Por exemplo, na tradição hinduísta, há os ciclos de transformações chamados de “yugas”, algo como eras históricas. Basicamente são quatro, e a passagem de uma para outra é calculada com uma fórmula matemática progressiva. O somatório dessas transições de yugas dá algo por volta de 26 mil.

Esse período de tempo também corresponde, em termos astronômicos, a um deslocamento de 360º de precessão dos equinócios (um dos movimentos do eixo vertical do planeta Terra), que é parecido como o movimento do eixo vertical de um pião. Devido a esse movimento, o equinócio da primavera (quando o dia tem a mesma duração da noite), embora celebrado no mesmo dia, a cada ano, mostra um pequeno “atraso” da posição do sol em relação àquela do ano anterior: algo imperceptível de ano para ano, mas que se acumula em trinta graus a cada dois mil e poucos anos, até completar a volta completa de 360 graus. Por isso se diz que passamos da era de Peixes (da compaixão cristã) para a era de Aquário (da revolução tecnológica): um deslocamento de trinta graus, de um signo, uma mudança de comportamento social, em uns dois mil e poucos anos.

Os indianos, que estudam a correlação entre o comportamento das sociedades e dos astros há milênios, fizeram uma descrição lendária desse movimento. Eles observaram essas transições e as chamaram, então, de yugas. Para eles, as yugas estão associadas ou a bem-aventuranças ou má aventuranças e intermediações entre as duas. Eles se referem a ciclos, em que nada é sempre bom ou sempre ruim, em que tudo passa e sempre há uma transformação a caminho, tanto no universo como na vida humana sobre a Terra.

Quem descreve didaticamente essa visão é o sábio indiano Yuksteswar, que era o guru do Yogananda. Ele mostra em um texto seu e famoso “The Holy Science”, (a ciência divina), com referências ocidentais, os fatos históricos que marcariam essas yugas. São tentativas de explicação, que se referem a sínteses de observações da nossa história terrestre recente.

Também os maias, cujas “previsões” estão na moda, têm seus registros associados aos movimentos astronômicos, cujas interpretações atuais vêm estimulando aqueles sentimentos, enraizados no inconsciente coletivo, que associam mudanças ao fim, com tons de fatalidade. No entanto, além da constatação dos deslocamentos dos equinócios, parece que os maias acentuavam o evento da passagem do sol, no dia 21 de dezembro de 2012 (o solstício de dezembro) pelo “centro da galáxia” (uma região entre as constelações de escorpião e sagitário, a constelação de Ophiucus), do ponto de vista da Terra. Também observavam que, nessa posição, intensificam-se as explosões solares, como se observa atualmente, desde o início de 2012.

Que o sol vai esquentar-se, até os maias previram, mas daí prever-se o fim do mundo inclui-se algum exagero. Com certeza, vão-se perceber uns fenômenos eletromagnéticos intensos, os quais poderão perturbar o funcionamento do que depende de eletricidade em nossas cidades. Os governantes e administradores deverão tomar algumas providências preventivas. As pessoas poderão ter algumas surpresas superáveis, e o mundo prosseguirá...

No entanto, quando se fala em fim do mundo, extravasam-se os medos coletivos e que são muito sedutores. O medo seduz, haja vista os filmes de terror que batem recordes de bilheteria. As pessoas fazem fila pra morrer de medo. No fundo é um desejo de superação, a saga da humanidade: lidar com a inexorabilidade da morte.

Hoje em dia, há muita aflição mental. Tudo está muito exacerbado nesta “Era de Aquário”, que se caracteriza pela inexistência de uma ordem controlada de forma evidente. Vivemos uma ordem não-linear, em que não se consegue o pleno controle das coisas e das pessoas, nem no tempo nem no espaço.

Muita calma nesta hora... e nestes tempos.

A sabedoria oriental também nos oferece uma linguagem simbólica para lidar com tanta imponderabilidade: Shiva, o deus que tanto cria quanto destrói, ao mesmo tempo; Vishnu, que preserva; Brahma, que a tudo dá origem; yugas, que expressam os ciclos de mudança; Yoga, meditação e tranquilidade para agir com os outros no mundo. São muitos os recursos além da racionalidade, e que podem estimular comportamentos adequados para lidar com a realidade incontrolável e parcialmente previsível.

O fim dos tempos está simplesmente presente em nós desde que nascemos, ou melhor, até bem antes, mas prosseguimos...

Thadeu Martins

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Nossos cinco recursos de transcendência

Os exercícios de Yoga que praticamos têm o propósito de trazermos a atenção para nós mesmos, para sermos quem somos. E o que somos nesta vida é este todo que tem o sentido da individualidade; que é capaz de conceber, de dar direcionamentos; que promove transformações, a partir de interações com os valores que temos e com as demais individualidades.

Os nossos valores são expressões de nossos sentimentos, os quais determinam o que fazemos; avaliam as nossas ações e as dos outros; direcionam em um certo sentido, e definem a reorientação dos conceitos que a nossa individualidade cria ou acredita.

É nos relacionamentos sociais que os valores são confirmados, transformados ou reorientados. Isso se dá no campo do afeto, dos sentimentos, das emoções. Estamos sempre fazendo esse jogo valorativo, que está no campo das relações. Já o processo produtivo, do trabalho de cada um de nós, da labuta para a sobrevivência, está baseado na aplicação do tempo e da matéria, dos recursos. Neles utilizamos nossas habilidades de administração do tempo e técnicas de manipulação de equipamentos, de instalações, de objetos e estruturas.

São, portanto, quatro campos, que se aplicam ao indivíduo e às organizações humanas: da identidade (auto imagem e conceitos); do afeto e relações (sentimento e valores); do querer (motivações e processos de produção); da segurança (recursos físicos e estruturais). Quando desempenhamos um papel na sociedade, no trabalho ou na família, estamos mobilizando essas quatro dimensões, campos ou níveis qualitativos do nosso todo perceptível.

Quanto mais harmonizado estiver o funcionamento desses quatro aspectos, melhor será para nós. Se ficarmos somente no nível conceitual, conseguiremos nos adaptar apenas em ambientes insensíveis, frios, em que as pessoas não se relacionam de forma afetiva. Se ficarmos apenas no sentir do afeto e das relações, poderemos ter sérias dificuldades se não nos sentirmos incluídos, aceitos ou amados. Um coração angustiado pode até chegar a um infarto. Se enfatizarmos apenas o sentir e o querer, provavelmente nos tornaremos reféns das paixões. Num extremo, podemos chegar ao pânico e em outro, poderemos nos tornar compulsivos: por alegria, comida, sexo, trabalho, e por tudo o que apazigue a emoção superlativa. Nesses casos, ficamos aprisionados nos remoinhos do querer, impulsionados pelos ventos sentimentais. Desajuizados. Do mesmo modo, a ocupação excessiva com segurança e recursos poderá nos imobilizar, petrificar com tudo o que temos e precisamos manter (com ou sem a ajuda do mitológico rei Midas).

O eterno desafio é o de harmonizar nossa atuação nesses campos do indivíduo e das organizações. Pratica-se Yoga com essa compreensão: harmonizar essas quatro dimensões de nós mesmos, para ir além (ou antes de ir para o além).

Mudar-se para melhor. Querer transformar-se para ser você mesmo e ainda melhor em si e com os outros no mundo. Assim, quando respiramos, trabalhamos o nosso campo valorativo, pois é nessa dimensão que os sentimentos avaliam os resultados da realidade. Quando nos alongamos, trabalhamos a estrutura, o corpo físico, os recursos estruturais. Ao projetarmos a intenção, meditamos, e nos voltarmos para nós mesmos, percebemos a nossa própria imagem, a imagem da instituição na qual trabalhamos ou a imagem da família a qual pertencemos. Essa projeção está relacionada com o sentido de individuação, com a nossa própria identidade. Não existe imagem mais extraordinária do que a nossa própria, por isso olhamos tantas vezes quanto pudermos para o espelho. E é crucial aceitarmos a imagem que vemos refletida.

Em Yoga, nos exercitamos para cultivar a harmonia desses quatro campos, que os gregos antigos associavam a quatro elementos: à terra, à água, ao ar e ao fogo. Em outras palavras: dos recursos (o corpo e as coisas), dos processos vitais (o querer e a dedicação), do sentir (os valores e as relações), da individualidade (a compreensão, os conceitos, a imagem).

E ainda há um quinto elemento, que os quatro anteriores não são capazes de caracterizar, que os antigos chamavam de éter, o etéreo. No Hinduísmo, ele é chamado de “a graça de Bhraman”. Alguns cientistas da Física Quântica usam a expressão “além do espaço-tempo”. São várias as formas de se referir à transcendência, ao “ir além”.

Estamos falando, portanto, de um além, para o qual precisamos viver para chegar lá. O caminho proposto em Yoga é o de acrescentar o meditar ao nosso agir, para harmonizar nossas atitudes e nossos comportamentos com os outros e com o mundo. Assim, podemos ultrapassar os limites do indivíduo, das organizações, da matéria e das relações sociais. Podemos dispor a nosso favor o fazer material e a abstração prática.

Com essa intenção, vamos reorientar o viver de modo gradual: desenvolver o hábito de meditar de olhos fechados e sozinhos em um lugar protegido, até adquirir a mestria de abrir os olhos e também o coração e as mãos para lidar com os outros e com o mundo. Com a prática habitual podemos nos tornar ainda melhores do que a sorte nos ajudou até agora.

Precisamos de tranquilidade pessoal, de agir na realidade e nas circunstâncias. Mesmo que nem tudo esteja sob o nosso controle (graças a Deus). Isso nos possibilita superarmos os medos e realizarmos aquilo que está ao nosso alcance e além da imaginação limitada pelas experiências ultrapassadas.

Thadeu Martins