sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Nossos cinco recursos de transcendência

Os exercícios de Yoga que praticamos têm o propósito de trazermos a atenção para nós mesmos, para sermos quem somos. E o que somos nesta vida é este todo que tem o sentido da individualidade; que é capaz de conceber, de dar direcionamentos; que promove transformações, a partir de interações com os valores que temos e com as demais individualidades.

Os nossos valores são expressões de nossos sentimentos, os quais determinam o que fazemos; avaliam as nossas ações e as dos outros; direcionam em um certo sentido, e definem a reorientação dos conceitos que a nossa individualidade cria ou acredita.

É nos relacionamentos sociais que os valores são confirmados, transformados ou reorientados. Isso se dá no campo do afeto, dos sentimentos, das emoções. Estamos sempre fazendo esse jogo valorativo, que está no campo das relações. Já o processo produtivo, do trabalho de cada um de nós, da labuta para a sobrevivência, está baseado na aplicação do tempo e da matéria, dos recursos. Neles utilizamos nossas habilidades de administração do tempo e técnicas de manipulação de equipamentos, de instalações, de objetos e estruturas.

São, portanto, quatro campos, que se aplicam ao indivíduo e às organizações humanas: da identidade (auto imagem e conceitos); do afeto e relações (sentimento e valores); do querer (motivações e processos de produção); da segurança (recursos físicos e estruturais). Quando desempenhamos um papel na sociedade, no trabalho ou na família, estamos mobilizando essas quatro dimensões, campos ou níveis qualitativos do nosso todo perceptível.

Quanto mais harmonizado estiver o funcionamento desses quatro aspectos, melhor será para nós. Se ficarmos somente no nível conceitual, conseguiremos nos adaptar apenas em ambientes insensíveis, frios, em que as pessoas não se relacionam de forma afetiva. Se ficarmos apenas no sentir do afeto e das relações, poderemos ter sérias dificuldades se não nos sentirmos incluídos, aceitos ou amados. Um coração angustiado pode até chegar a um infarto. Se enfatizarmos apenas o sentir e o querer, provavelmente nos tornaremos reféns das paixões. Num extremo, podemos chegar ao pânico e em outro, poderemos nos tornar compulsivos: por alegria, comida, sexo, trabalho, e por tudo o que apazigue a emoção superlativa. Nesses casos, ficamos aprisionados nos remoinhos do querer, impulsionados pelos ventos sentimentais. Desajuizados. Do mesmo modo, a ocupação excessiva com segurança e recursos poderá nos imobilizar, petrificar com tudo o que temos e precisamos manter (com ou sem a ajuda do mitológico rei Midas).

O eterno desafio é o de harmonizar nossa atuação nesses campos do indivíduo e das organizações. Pratica-se Yoga com essa compreensão: harmonizar essas quatro dimensões de nós mesmos, para ir além (ou antes de ir para o além).

Mudar-se para melhor. Querer transformar-se para ser você mesmo e ainda melhor em si e com os outros no mundo. Assim, quando respiramos, trabalhamos o nosso campo valorativo, pois é nessa dimensão que os sentimentos avaliam os resultados da realidade. Quando nos alongamos, trabalhamos a estrutura, o corpo físico, os recursos estruturais. Ao projetarmos a intenção, meditamos, e nos voltarmos para nós mesmos, percebemos a nossa própria imagem, a imagem da instituição na qual trabalhamos ou a imagem da família a qual pertencemos. Essa projeção está relacionada com o sentido de individuação, com a nossa própria identidade. Não existe imagem mais extraordinária do que a nossa própria, por isso olhamos tantas vezes quanto pudermos para o espelho. E é crucial aceitarmos a imagem que vemos refletida.

Em Yoga, nos exercitamos para cultivar a harmonia desses quatro campos, que os gregos antigos associavam a quatro elementos: à terra, à água, ao ar e ao fogo. Em outras palavras: dos recursos (o corpo e as coisas), dos processos vitais (o querer e a dedicação), do sentir (os valores e as relações), da individualidade (a compreensão, os conceitos, a imagem).

E ainda há um quinto elemento, que os quatro anteriores não são capazes de caracterizar, que os antigos chamavam de éter, o etéreo. No Hinduísmo, ele é chamado de “a graça de Bhraman”. Alguns cientistas da Física Quântica usam a expressão “além do espaço-tempo”. São várias as formas de se referir à transcendência, ao “ir além”.

Estamos falando, portanto, de um além, para o qual precisamos viver para chegar lá. O caminho proposto em Yoga é o de acrescentar o meditar ao nosso agir, para harmonizar nossas atitudes e nossos comportamentos com os outros e com o mundo. Assim, podemos ultrapassar os limites do indivíduo, das organizações, da matéria e das relações sociais. Podemos dispor a nosso favor o fazer material e a abstração prática.

Com essa intenção, vamos reorientar o viver de modo gradual: desenvolver o hábito de meditar de olhos fechados e sozinhos em um lugar protegido, até adquirir a mestria de abrir os olhos e também o coração e as mãos para lidar com os outros e com o mundo. Com a prática habitual podemos nos tornar ainda melhores do que a sorte nos ajudou até agora.

Precisamos de tranquilidade pessoal, de agir na realidade e nas circunstâncias. Mesmo que nem tudo esteja sob o nosso controle (graças a Deus). Isso nos possibilita superarmos os medos e realizarmos aquilo que está ao nosso alcance e além da imaginação limitada pelas experiências ultrapassadas.

Thadeu Martins