quarta-feira, 14 de março de 2012

O velho fim do mundo

A humanidade está sempre passando por ciclos de mudança e a ideia de fim está muito enraizada em nós, pois está associada não apenas a transformações, mas também à morte: algo que nos acompanha desde que nascemos e está sempre presente em nossa cultura.

Mas nem todas as interpretações de mudanças acentuam os aspectos fatais. Por exemplo, na tradição hinduísta, há os ciclos de transformações chamados de “yugas”, algo como eras históricas. Basicamente são quatro, e a passagem de uma para outra é calculada com uma fórmula matemática progressiva. O somatório dessas transições de yugas dá algo por volta de 26 mil.

Esse período de tempo também corresponde, em termos astronômicos, a um deslocamento de 360º de precessão dos equinócios (um dos movimentos do eixo vertical do planeta Terra), que é parecido como o movimento do eixo vertical de um pião. Devido a esse movimento, o equinócio da primavera (quando o dia tem a mesma duração da noite), embora celebrado no mesmo dia, a cada ano, mostra um pequeno “atraso” da posição do sol em relação àquela do ano anterior: algo imperceptível de ano para ano, mas que se acumula em trinta graus a cada dois mil e poucos anos, até completar a volta completa de 360 graus. Por isso se diz que passamos da era de Peixes (da compaixão cristã) para a era de Aquário (da revolução tecnológica): um deslocamento de trinta graus, de um signo, uma mudança de comportamento social, em uns dois mil e poucos anos.

Os indianos, que estudam a correlação entre o comportamento das sociedades e dos astros há milênios, fizeram uma descrição lendária desse movimento. Eles observaram essas transições e as chamaram, então, de yugas. Para eles, as yugas estão associadas ou a bem-aventuranças ou má aventuranças e intermediações entre as duas. Eles se referem a ciclos, em que nada é sempre bom ou sempre ruim, em que tudo passa e sempre há uma transformação a caminho, tanto no universo como na vida humana sobre a Terra.

Quem descreve didaticamente essa visão é o sábio indiano Yuksteswar, que era o guru do Yogananda. Ele mostra em um texto seu e famoso “The Holy Science”, (a ciência divina), com referências ocidentais, os fatos históricos que marcariam essas yugas. São tentativas de explicação, que se referem a sínteses de observações da nossa história terrestre recente.

Também os maias, cujas “previsões” estão na moda, têm seus registros associados aos movimentos astronômicos, cujas interpretações atuais vêm estimulando aqueles sentimentos, enraizados no inconsciente coletivo, que associam mudanças ao fim, com tons de fatalidade. No entanto, além da constatação dos deslocamentos dos equinócios, parece que os maias acentuavam o evento da passagem do sol, no dia 21 de dezembro de 2012 (o solstício de dezembro) pelo “centro da galáxia” (uma região entre as constelações de escorpião e sagitário, a constelação de Ophiucus), do ponto de vista da Terra. Também observavam que, nessa posição, intensificam-se as explosões solares, como se observa atualmente, desde o início de 2012.

Que o sol vai esquentar-se, até os maias previram, mas daí prever-se o fim do mundo inclui-se algum exagero. Com certeza, vão-se perceber uns fenômenos eletromagnéticos intensos, os quais poderão perturbar o funcionamento do que depende de eletricidade em nossas cidades. Os governantes e administradores deverão tomar algumas providências preventivas. As pessoas poderão ter algumas surpresas superáveis, e o mundo prosseguirá...

No entanto, quando se fala em fim do mundo, extravasam-se os medos coletivos e que são muito sedutores. O medo seduz, haja vista os filmes de terror que batem recordes de bilheteria. As pessoas fazem fila pra morrer de medo. No fundo é um desejo de superação, a saga da humanidade: lidar com a inexorabilidade da morte.

Hoje em dia, há muita aflição mental. Tudo está muito exacerbado nesta “Era de Aquário”, que se caracteriza pela inexistência de uma ordem controlada de forma evidente. Vivemos uma ordem não-linear, em que não se consegue o pleno controle das coisas e das pessoas, nem no tempo nem no espaço.

Muita calma nesta hora... e nestes tempos.

A sabedoria oriental também nos oferece uma linguagem simbólica para lidar com tanta imponderabilidade: Shiva, o deus que tanto cria quanto destrói, ao mesmo tempo; Vishnu, que preserva; Brahma, que a tudo dá origem; yugas, que expressam os ciclos de mudança; Yoga, meditação e tranquilidade para agir com os outros no mundo. São muitos os recursos além da racionalidade, e que podem estimular comportamentos adequados para lidar com a realidade incontrolável e parcialmente previsível.

O fim dos tempos está simplesmente presente em nós desde que nascemos, ou melhor, até bem antes, mas prosseguimos...

Thadeu Martins