quarta-feira, 23 de maio de 2012

De si a si mesmo

No nosso cotidiano, é fundamental percebermos onde estamos e nos percebermos nesse lugar e situação. Essas duas atitudes estão associadas aos exercícios de Yoga em que nos alongamos na vertical, na lateral ou ficamos sentados com a coluna ereta. Nessas posturas, damos especial atenção à nossa respiração, ao nosso ritmo essencial.

Também cultivamos duas outras atitudes em Yoga: o desapego ou não-ação, em que abrimos mão do agir exagerado, e a autoconfiança. Praticamos o desapego nas posturas em que nos curvamos para frente, mostrando a nuca, e nos exercícios em que ficamos de cabeça para baixo. Em contraposição a essa atitude de abrir mão do agir, praticamos os exercícios de nos curvarmos para trás, inspirando de peito aberto, estimulando, assim, a nossa autoconfiança.

Ou seja, são quatro atitudes – perceber onde se está, perceber-se, desapegar-se e cultivar a autoconfiança – propiciadoras de um agir com tranquilidade e eficiência. Agiremos naquilo em que temos condições de realizar, em que o ambiente é favorável, em que estamos sintonizados e no qual sentimos confiança.

Então, os exercícios físicos em Yoga têm o propósito de nos descondicionar para deixarmos um pouco de lado as nossas personas, as máscaras habituais e cultivarmos essas quatro atitudes, com foco no aspecto social. As posições meditativas, por outro lado, têm o objetivo de nos voltarmos, ainda mais, para nós mesmos. Usamos toda a harmonização que exercitamos fisicamente em prol da nossa tranquilidade interior.

Segundo os sábios, quando a nossa mente está serena - depois da meditação, por exemplo -, ela se torna espelhada como a superfície de um lago, bem tranquila, que reflete a realidade. Nossa mente, nesse estágio, refletiria uma realidade que não é esta, exterior a nós. Seria, portanto, uma realidade de apreensão direta, pela serenidade, da realidade dentro da qual esta, à qual estamos habituados, encontra-se.

O sábio Patanjali, sistematizador de todo o conhecimento em Yoga, faz sugestões de comportamento social. São verdadeiros códigos de conduta adequada ao praticante de Yoga. São os dois primeiros de um conjunto de oito grupos de comportamentos: (1) restrições (Yamas),(2) recomendações/estímulos (Nyamas), (3) controle do corpo (Ásanas, posturas), (4) controle da energia e da respiração (Pranayamas), (5) introspecção, (6) concentração, (7) contemplação, e (8) o estado de Samadhi.

Os Yamas e Nyamas são regras bem simples. Basicamente, Patanjali afirma que o praticante de Yoga não ofende, não mente, evita se dispersar nas emoções exageradas, não rouba e não cobiça. Além desses cuidados, é estimulado o cultivo da pureza, do contentamento, da persistência, do estudo e do entregar-se à vontade divina.

Então, a prática de Yoga tem uma pequena parte de exercício físico e uma grande ênfase em exercício social. E seja um ou outro, os dois conjuntos de práticas têm um propósito que não é nem social nem físico. Podemos dizer que é espiritual ou de transcendência (daqueles dois aspectos espaço-temporais).

Por fim, a imagem citada anteriormente, das águas plácidas de um lago que reflete a realidade, é um convite a que deixemos a mente tranquila, refletindo a nossa natureza interior. Afinal, é no mundo interior onde mais temos condições de humanizar e vivenciar a graça do convívio. E o melhor: está sempre à nossa disposição!

Thadeu Martins