sexta-feira, 20 de julho de 2012

E viva o presente!

Ao longo de nossa vida, fomos desenvolvendo habilidades extraordinárias para lidar com os outros, com o mundo, para sermos aceitos e compreendidos. Isso desde muito pequenos. Tivemos que nos adaptar às várias circunstâncias, ao grupo e a nós mesmos para seguirmos sendo incluídos. Mas, de algum modo, alguns desconfortos podem ter surgido.

Muitas vezes, tentamos esquecer ou encobrir o desconforto, mas ele prossegue nos incomodando. A reminiscência aflora independentemente de nossa vontade. São lembranças de algo que não ficou bem resolvido e, volta e meia, ressurgem. Em Yoga, buscamos dar atenção a essas reminiscências de tal modo que possamos compreendê-las, resolvê-las e nos liberarmos delas.

Há muitas possibilidades de lidarmos com as reminiscências. A Psicologia possui vários recursos, as religiões também, de certa maneira. E todos nós, a partir de nossas próprias experiências, também vamos aprendendo a lidar com essas reminiscências recorrentes. O sábio Patanjali destaca que na prática da meditação, em que estabilizamos a nossa relação física com o mundo, criamos condições ideais para serenar a mente. Nesse estado, podemos apenas descansar, ficar em paz. O que já é maravilhoso.

Mas também pode acontecer de algumas daquelas reminiscências insistirem em aparecer enquanto meditamos. Pode ser algo corriqueiro, como um problema de trabalho para o qual temos que dar uma solução. E de repente, para a nossa surpresa, pode surgir uma solução para esse problema. Conforme afirmam os estudiosos no assunto, os insights são captados numa região que está além do espaço-tempo, à qual temos acesso quando não estamos agindo, quando estamos fora do agir intencional.

No entanto, também pode surgir uma daquelas reminiscências para as quais temos que dar especial atenção, que nos interessam tratar. Nesse caso, o melhor é deixar fluírem os pensamentos relacionados a essa reminiscência assim que ela aparecer. Vamos puxando o fio da meada: os pensamentos encadeados que essa reminiscência pode produzir. Continuamos tranquilos e numa posição muito privilegiada, porque no momento em que adotamos essa intenção, nós nos tornamos um observador de nós mesmos. Criamos, assim, um distanciamento, que esvazia as emoções e permite prosseguir a observar.

Este é o artifício da meditação: criar um distanciamento que nos permita ser dual; somos aquele que vivencia a experiência e, ao mesmo tempo, quem observa aquela pessoa que a vivencia. Isso faz com que as emoções fiquem deslocadas. Não sofremos muito nem pouco, também não nos alegramos nem muito nem pouco. Apenas nos observamos.

As reminiscências estão assentadas num terreno dual: significados e emoções. É uma emoção associada a um significado e as duas juntas podem não estar bem resolvidas dentro de nós. Enquanto não resolvermos, aquilo volta.

Então, a dica é atuar em si, quando isso voltar à tona, tentar responder a duas perguntas: qual é o significado dessa reminiscência e qual é a emoção que sinto em relação a essa recordação? Pode ser uma infinidade de coisas. Percebeu o problema, pare e volte à causa até chegar onde tudo começou. Assim vamos chegar à origem daquele sentimento. Às vezes, a origem pode estar bem distante, na época em que éramos crianças. Outras podem ser recentes, mas, provavelmente, têm alguma analogia com outra questão bem mais anterior.

O importante é perceber o que isso significa para cada um de nós. Seja lá qual for o significado, certamente estará associado a uma circunstância e à pessoa que o sente, claro. Alguém pode dizer que isso não é meditação, é autoanálise. Tudo bem, faz parte do processo meditativo essa autoanálise.

As movimentações da mente, segundo Patanjali, são de duas naturezas: pensamentos e reminiscências. Pensamento é quando ativamente maquinamos, fazendo projeções ou equacionamentos. Já as reminiscências surgem independentemente de nossa vontade. O propósito na meditação é serenarmos tanto os pensamentos quanto as reminiscências. E no caso de querermos compreender as reminiscências recorrentes, podemos analisá-las fazendo perguntas e até mesmo anotando as respostas, intercalando a análise com a meditação.

Se nos habituarmos a fazer isso com regularidade, com certeza a nossa vida vai melhorar e muito.

Thadeu Martins