segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Relaxamento essencial

O relaxamento talvez seja uma das práticas mais fáceis, simples, agradáveis e efetivas em Yoga e que propicia o estado de não-agir, que é cada vez mais raro em nossa vida, em que agimos seguindo receitas ou rotinas, na maioria das vezes. Algumas delas estão profundamente instaladas dentro de nós, como verdadeiros programas básicos de computador.

Isso significa também que essas receitas são formas de inteligência. No entanto, quando ficamos sem fazer nada, um outro tipo de inteligência está em atuação. Nosso corpo continua a funcionar de forma perfeita, graças ao sistema nervoso autônomo. Essa é uma inteligência vital, essencial, à qual cada um de nós acrescenta um aprendizado, daquilo que é apreendido no cotidiano. A partir de nossas experiências, passamos a adotar outros modos de viver e de nos relacionarmos. Então, estamos falando de níveis de inteligência: a inteligência essencial e todas as outras inteligências, nas quais acrescentamos rotinas e eficiência.

Quando relaxamos, de início, usamos um pouco de nossa inteligência adquirida, operacional, para comandar o relaxamento. Então, fechamos os olhos, vamos sentindo nosso corpo, parte por parte, até relaxarmos por completo. Nesse momento, não precisamos mais comandar. A nossa inteligência operacional pode descansar.

Isso é algo extraordinário e ao mesmo tempo tão comum! Deixamos o nosso corpo viver por ele mesmo. Os condicionamentos que nós criamos com a nossa inteligência operacional – preocupações, lembranças ou projeções – não têm oportunidade de vir à tona. Nós nos liberamos dessas maquinações, o que torna o nosso dia muito melhor. Ficamos muito mais felizes, em paz.

Se o único exercício de Yoga que se fizesse ao longo de nossa vida fosse o relaxamento, isso já seria a glória. Em termos de saúde, o relaxamento diário traz enormes benefícios. É possível dizer que quase 80% dos males que nos afligem são doenças adquiridas. E são adquiridas porque se tornam condicionamentos mentais. Ao relaxarmos, permitimos ao nosso organismo não se submeter àquela programação mental da doença.

É por isso que os médicos dizem: “repouso absoluto”. Durante o repouso, o nosso organismo se cura. Então, é bom todo o mundo repousar bastante. À medida que fazemos isso, vamos criando o hábito de desligar a inteligência operacional e ligar a inteligência essencial, que vai descondicionar as doenças. Assim, recuperamos a nossa vitalidade que, por alguma razão da vida, estava abalada. Praticando isso a vida inteira, vamos diminuindo os males adquiridos.

Claro que sempre haverá algo mal resolvido da infância e que ficou reprimido dentro de nós. Conforme explica a psicologia, nós reproduzimos comportamentos que nos fazem vivenciar uma determinada situação ou emoção que reprimimos no passado. Nem lembramos dessa sensação, mas a realizamos. E tendemos a praticar inúmeras vezes, porque, lá no nosso íntimo, temos a esperança ou o projeto de desta vez nos sairmos bem daquela situação em que, por alguma razão, temos nos saído mal. Até as relações que estabelecemos, de algum modo, são com pessoas que nós escolhemos, porque nos permitem reproduzir essas situações.

É claro que há várias armadilhas nisso. Aquilo tudo já passou, não foi assim tão grave – e se foi, já passou há muito tempo. De fato, aquilo nunca vai se resolver mesmo. Talvez o que nos reste seja tomar consciência e perdoar, aceitar a situação. Assim, nós nos libertamos. Vamos nos liberando daquele comportamento nocivo, repetitivo, que nos faz sofrer. Paramos de ficar encucando, de colocar culpa nos outros ou em nós mesmos.

A forma mais eficiente para alcançarmos essa liberação é começarmos a prestar atenção nesses fatos que se repetem em nossa vida. Por que isso acontece com tanta frequência? Se é sempre com você, não dá nem para colocar a culpa nos outros. Provavelmente, você se colocou nessa situação em muitas e muitas vezes.

De algum modo, nós criamos essa situação. Tentamos reproduzir a mesma experiência inúmeras vezes, para ver se desta vez resolvemos bem. Mas a chance de nos darmos mal, repetidamente, é muito grande. Afinal, aquilo não está resolvido. O melhor é parar e prestar atenção em nós mesmos, em nossas emoções características e nos comentários que as outras pessoas emitem sobre nós, para esclarecer e compreender o que estamos reproduzindo inconscientemente.

Assim, vamos tornando consciente algo que acontecia de forma inconsciente: os sentimentos associados às situações desconfortáveis; os próprios comportamentos que propiciam as situações desconfortáveis. Esse esclarecimento nos dá uma grande oportunidade de nos compreender melhor e aceitar ou não aquelas situações, para rever e até mudar o nosso comportamento habitual. Com certeza, isso nos dará uma condição de liberdade, de liberação, de paz, muito maior do que aquela que antecedia à tomada de consciência. Desse modo, damos oportunidade para a nossa inteligência operacional atuar para nos libertar daquilo que nos incomoda.

Depois desse prestar tanta atenção, que dá um trabalho enorme, que não é físico, mas mental, de percebermos o que andou fazendo a inteligência operacional (depois de tanta encucação), o melhor a fazer é um bom relaxamento, um trabalho físico de não agir. Damos, então, uma chance à inteligência essencial, por simplesmente não fazer nada, deixando-a atuar a nosso favor, como ela sempre faz.

Thadeu Martins