sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O ser e a Roda

Em minha releitura do Yoga Sutra, prossigo pelo caminho de Kaivalian – Kaivalian Pada –, nome do último capítulo do texto de Patânjali. Vou revendo os sutras e os vários comentários. Basicamente, há um grande comentarista desse texto, Vyasa, que é até mais lendário que Patânjali; destacam-se também Vachaspati (Séc. X) e Bhikshu (Séc.XV) entre os históricos. Eles fazem uma discussão filosófica, conforme suas épocas. Quem me apresenta a interpretação deles é o Dr. Jayadeda Yogendra, em textos que eram utilizados no Yoga Institute, na época em que lá estive como aluno residente (1983).

O Dr. Yogendra reproduz as palavras desses comentaristas e faz correlações com as outras linhas filosóficas hinduístas, que tratam dos mesmos temas em seus contextos doutrinários. Então, para cada sutra, são várias páginas de discussão. O sutra que eu li esta semana está bem fixado na importância de serenar a mente. Alguém pode achar estranha essa ênfase no último capítulo, pois é assim que começa o Yoga Sutra, quando Patânjali diz que “Yoga é serenar as movimentações da mente”. É verdade; mas, nesse capítulo final, ele discute o porquê disso, e vai aos píncaros da filosofia indiana.

O mestre lembra que, no cotidiano, as minhas experiências geram resultados, que são percebidos por mim, com uma emoção associada a cada significado (ou vice-versa) e que cada percepção, associada à emoção e significado, gera nova memória. O que os comentaristas tradicionais dizem em relação a isso é o seguinte: a tal da mente é a própria memória, ela é constituída por essas impressões que ficam registradas, das experiências de vida. E essas experiências, por mais insignificantes que sejam, ficam para sempre.

Na compreensão poética dos indianos, ficam para sempre mesmo. Segundo eles, existe o Samsara, a roda das reencarnações. Tudo o que eu faço cria karma, e esse empurra a roda, que vai girando. Então, tudo o que eu faço agora, gira a roda, que vai gerar consequências a seguir. A roda não para nunca, segundo os indianos. A dica deles é cessar as movimentações da mente para não gerar karmas e deixar de reencarnar a vida inteira, por várias vidas.

Se eu olhar de outro ponto de vista, menos poético, também posso perceber o seguinte: existe um componente genético, afinal, fui gerado por um pai e uma mãe, que também tiveram muitas experiências e memórias; os cromossomos também fazem parte desse conjunto memorizado. O novo ser que surge da junção desses cromossomos traz memórias ancestrais, que desse modo remontam até a primeira coisa viva que surgiu na Terra, uma cianobactéria que se juntou com uma molécula de água, há 3,5 bilhões de anos. É uma visão mais objetiva, mas razoável, de que eu trago uma memória permanente, para a qual eu, você e todo o mundo vive acrescentando algo, com as experiências pessoais. E assim a roda continua a girar.

Nos sutras, Patânjali destaca a conhecida fórmula: cessada a causa, cessa o efeito. Se eu consigo serenar a mente, neutralizar essas memórias que ficam pululando, eu posso cessar o estímulo para ações que não teriam nada a ver com o presente, mas sim com as memórias. Na medida em que eu lidar com o presente sem criar mais complicações, eu diminuirei o movimento da minha roda pessoal.

Patânjali alerta que grande parte dos desejos e anseios (provocadores de ações) não são originais; eles são reminiscências dessas vidas passadas, dessas memórias, que vieram para ficar e ficarão, mas que eu, você e todo o mundo pode neutralizar, na medida em que serenar a mente.

E nesse ponto, o Dr. Jayadeda Yogendra chama atenção que há vários tipos de ação. Aquelas ações nas quais existe apego e que são as que vão criar problemas, porque se está apegado – ou porque se está interessado ou com medo do resultado. Está havendo identificação e interesse. Eu me identifico, fico interessado e me apego. Pronto, começam as complicações.

O Dr. Jayadeda diz que, de todas as ações, a que cria menos karma é a mental. Compreender, meditar, desejar o bem para os outros, enfim, ação mental que condiciona o bem, eis a melhor ação. Quanto mais a ação for sutil e estiver longe da matéria, menos será propícia a criar apegos e interesses no resultado da ação.

Os indianos falam em quatro tipos de ação kármica, conforme criem dor, prazer, dor e prazer, ou nem dor nem prazer. O karma da ação que provoca dor é o pior caso, uma ação material e maligna. O karma do prazer é aquele em que se faz uma boa ação, mas interessada pelo prazer do resultado, e por isso geradora de apego. O melhor karma seria o da ação desinteressada, em que faço porque é o que se deve fazer, não me envolvo no resultado dela, não sinto nem dor nem prazer, porque não há nada disso em jogo, não há nada pessoal.

Assim, é a ação no estado de kaivalian, é o agir com integridade, isolado da ação kármica, consciente de que a minha individualidade é mera circunstância, que nada é pessoal, e assim posso seguir nesse caminho, driblando naturalmente os karmas.

Thadeu Martins